Imigração

Mais de 500 Investidores do Golden Visa Planeiam Ação Judicial Sobre Regras do Relógio da Nacionalidade

Os titulares de Golden Visa preparam uma ação coletiva depois de a nova Lei da Nacionalidade de Portugal ligar o relógio da nacionalidade aos próprios atrasos da AIMA nas autorizações.

6 min de leituraAtualizado julho de 2026

Mais de 500 titulares de Golden Visa estão a organizar-se para processar o Estado português, argumentando que o próprio remanescente de uma agência estatal está agora a ser usado para prolongar o tempo que têm de esperar pela nacionalidade. O grupo, mobilizado sobretudo através do WhatsApp e composto predominantemente por investidores norte-americanos, é o sinal mais claro até agora de que a reforma da nacionalidade de Portugal de maio de 2026 passou da controvérsia política para o confronto jurídico formal.

O Que Mudou, e Quando

A revista Lei da Nacionalidade de Portugal — Lei Orgânica n.º 1/2026 — foi aprovada pelo Parlamento a 1 de abril de 2026, com uma maioria de dois terços, promulgada pelo Presidente António José Seguro a 3 de maio de 2026 e entrou em vigor a 19 de maio de 2026. A alteração de destaque já é bem conhecida: a lei duplica o requisito-padrão de residência para a naturalização, de modo que a maioria dos cidadãos estrangeiros precisa agora de dez anos de residência legal, enquanto os cidadãos dos Estados-membros da UE e das nações da CPLP enfrentam um requisito de sete anos — face aos cinco anteriores.

O pormenor que está a causar o atual alvoroço é mais subtil. Ao abrigo do enquadramento que vigorou até este ano, o relógio da residência podia começar a contar a partir da data em que uma candidatura a residência temporária era submetida à AIMA, desde que a autorização fosse eventualmente concedida. A nova lei retira essa almofada. Como vários advogados de imigração o descrevem, a lei não contém qualquer regime transitório formal, e o relógio da residência começa agora a contar quando a AIMA emite uma autorização de residência, e não quando uma candidatura é submetida.

Essa distinção importa enormemente num sistema em que o processamento tem sido tudo menos rápido. As candidaturas ao Golden Visa têm, por lei, de ser decididas no prazo de 90 dias, mas, na prática, um número significativo de investidores esperou três a cinco anos pela emissão das suas autorizações de residência, havendo candidaturas que remontam a 2021. Segundo o método de contagem antigo, essa espera não custava aos investidores anos da sua elegibilidade para a nacionalidade. Segundo o novo, custa.

Quem Fica Protegido — e Quem Não Fica

A lei inclui uma salvaguarda, mas é restrita. Uma regra do artigo 7.º, n.º 2, protege as candidaturas à nacionalidade submetidas até 18 de maio de 2026, inclusive, mas os investidores que ainda não tinham chegado à fase de submissão, muitas vezes porque a AIMA não tinha emitido as suas autorizações de residência a tempo, não recebem tal abrigo. Por outras palavras: se a sua documentação passou na fila da AIMA antes do prazo-limite, mantém a antiga via dos cinco anos. Se não passou — sem culpa sua — está agora no relógio de sete ou dez anos, com a própria espera pela AIMA a deixar de contar.

Antes da ação coletiva, um consórcio de sociedades de advogados tentou a via administrativa. Um consórcio de nove sociedades de advogados portuguesas apresentou uma queixa formal ao Provedor de Justiça, a Provedoria de Justiça, atuando em nome de 1260 clientes de Golden Visa afetados pela revisão da lei da nacionalidade e pelo remanescente de processamento da AIMA. A posição do consórcio é que, se a AIMA tivesse processado as candidaturas dentro da sua janela exigida de 90 dias, muitos destes 1260 investidores teriam qualificado ao abrigo do antigo enquadramento de naturalização de cinco anos.

A via do Provedor de Justiça tem poderes reais, mas limitados. O Provedor de Justiça pode investigar organismos públicos, requisitar documentos e realizar inspeções sem aviso prévio, mas não pode proferir decisões vinculativas nem revogar legislação — embora possa remeter matérias para o Tribunal Constitucional a fim de avaliar a constitucionalidade de uma lei.

O Argumento Jurídico Que Está a Ganhar Forma

Os advogados que representam os investidores apoiam-se numa doutrina jurídica portuguesa específica, e não numa reivindicação genérica de justiça. Como afirmou um advogado próximo do consórcio, a estratégia jurídica assenta no princípio da proteção da confiança legítima — os investidores que iniciaram o processo sob um horizonte de cinco ou seis anos formaram uma expectativa qualificada que merece proteção legal.

Uma peça relacionada, submetida ao Tribunal Constitucional em dezembro de 2025, foi mais longe, apontando para declarações de um ministro do Governo que reconheciam que os casos de Golden Visa tinham sido "deixados para o fim" durante o processamento, com as autoridades a decidirem atender primeiro "os mais pobres, os mais vulneráveis" antes da carteira de casos de investidores mais abastados. Os advogados dos investidores argumentam que isto contraria o enquadramento do Governo, que apresenta os atrasos como um problema puramente de recursos.

O Governo, por seu lado, contesta que alguém tivesse direito a um passaporte rápido. Um Secretário de Estado envolvido no dossiê afirmou que as alterações da nacionalidade não afetam o próprio programa do Golden Visa, que a espera mais longa alinha Portugal com outros países europeus, e que quaisquer falsas expectativas de nacionalidade rápida decorreram de agências que promoviam os vistos, e não de promessas do Governo.

Consequências Práticas Já Visíveis

A disputa não é puramente teórica para o mercado. Os resgates de fundos ligados à via do Golden Visa por fundos de investimento aceleraram acentuadamente desde que a reforma entrou em vigor, com os advogados a relatarem que milhares de investidores adicionais estão a ponderar ações judiciais para lá dos 500 iniciais. Separadamente, entende-se que mais de 20 000 investidores continuam à espera de agendamentos da AIMA, alguns há anos, para decisões que a lei diz deverem demorar 90 dias.

Convém ser preciso quanto ao que não mudou. O próprio programa do Golden Visa mantém-se aberto, e a residência permanente ao fim de cinco anos não é afetada pela reforma da nacionalidade — a disputa é especificamente sobre o caminho da residência até um passaporte português. Para contexto sobre o funcionamento atual das vias de investimento, consulte o nosso portal de vistos.

O Que Observar a Seguir

O Governo tem 90 dias a contar da publicação da lei, a 19 de maio, para emitir a regulamentação de execução que esclareça como os atrasos da AIMA serão efetivamente tratados caso a caso — orientação que, à data desta redação, não foi publicada. Os investidores e os seus advogados dizem que o plano é esgotar primeiro os tribunais portugueses, mantendo em reserva uma contestação a nível europeu caso as vias internas falhem. Quem esteja atualmente no circuito do Golden Visa, ou a ponderar candidatar-se, deve tratar o calendário da nacionalidade como incerto e obter aconselhamento atual e específico ao seu caso junto de um advogado de imigração português antes de assumir qualquer data concreta de naturalização — os resultados aqui dependem inteiramente do processamento da AIMA e da forma como os tribunais vierem a decidir.

Para os leitores que acompanham como isto afeta o planeamento fiscal, a estratégia de residência ou os prazos de constituição de empresa ligados à residência portuguesa, os nossos guias de impostos e NIF e de constituição de empresa são atualizados à medida que a regulamentação de execução for surgindo.

Fontes

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