Um Êxodo Recorde, Medido em Registos de Contribuições
Os novos dados do Instituto da Segurança Social (ISS) de Portugal atribuem um número concreto a algo que recrutadores, associações de imigrantes e senhorios têm descrito de forma anedótica há meses: os estrangeiros estão a sair do sistema mais depressa do que em qualquer outro momento registado. Dados do Instituto da Segurança Social português obtidos pelo Expresso mostram que 162,252 trabalhadores estrangeiros deixaram de contribuir para o sistema em 2025 e não voltaram a aparecer no registo. Esse valor representa um aumento de 66% face ao ano anterior, equivalente a uma média de 455 trabalhadores estrangeiros a desaparecer do sistema todos os dias, face a 267 diários em 2024.
Para um país que passou a última década a cortejar mão de obra migrante para colmatar lacunas demográficas, a inversão é assinalável. Não significa que a força de trabalho estrangeira de Portugal esteja a entrar em colapso — continuam a chegar novas inscrições —, mas o ritmo de perda nunca foi tão acentuado, e está a manifestar-se em todos os recantos do mercado de trabalho, das explorações agrícolas do Algarve aos restaurantes de Lisboa.
Quem Está a Sair, e Porque Isso Importa
Os cidadãos brasileiros representaram o maior número de saídas em termos absolutos, com quase 60,000 a desaparecer do registo da Segurança Social em 2025 e cerca de 100,000 nos últimos dois anos. Mas as oscilações percentuais mais acentuadas vieram do Sul da Ásia: só os cidadãos indianos registaram 14,477 cessações em 2025 – face a 5,540 em 2024, e as cessações entre trabalhadores bangladeshianos subiram de 4,609 em 2024 para 12,594 em 2025 – um aumento de 173%. As saídas das comunidades africanas de língua portuguesa também mais do que duplicaram, com os cidadãos da Guiné-Bissau a abandonar o sistema ao triplo do ritmo anterior.
Esta não é uma história de uma só nacionalidade. As cessações na Segurança Social aumentaram em 51 das 59 nacionalidades monitorizadas, sendo que apenas os trabalhadores de Espanha, Alemanha, Moldávia, Países Baixos, Canadá, Hungria e Noruega evitaram um aumento. Pedro Góis, diretor do Observatório das Migrações de Portugal, enquadra o fenómeno em duas vias: os números refletem tanto um número crescente de migrantes que deixam Portugal como uma transição cada vez maior para o trabalho não declarado.
Essa segunda via é relevante para quem tenta ler os números corretamente. Uma cessação na base de dados do ISS não significa automaticamente que alguém apanhou um avião de regresso a casa. Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil, salienta que o elevado número de brasileiros a desaparecer do registo não significava necessariamente que tenham deixado Portugal — muitos, cujas autorizações de residência caducaram ou não puderam ser renovadas, viram os contratos de trabalho formais cancelados antes de transitarem para trabalho não declarado. Por outras palavras, parte desta quebra reflete o atraso nas renovações da AIMA a empurrar pessoas com residência legal para fora dos quadros formais e para a informalidade, e não apenas emigração genuína.
O Pano de Fundo da AIMA e do Custo de Vida
Nada disto acontece no vácuo. A lentidão do processamento na AIMA (ver o nosso portal de imigração para saber como são efetivamente os atuais prazos de renovação) deixou milhares de residentes estrangeiros num limbo, incapazes de confirmar formalmente a sua situação junto dos empregadores, mesmo quando o processo subjacente é sólido. Os líderes comunitários citados nas notícias apontam também para salários que não acompanharam o ritmo das rendas e dos custos do dia a dia, empurrando os trabalhadores para destinos que oferecem melhor remuneração. Shiv Kumar Singh, da Casa da Índia, descreveu a mudança sem rodeios, afirmando que os migrantes têm sido atraídos para outros lugares porque «o país já não tem argumentos para que fiquem».
Porque o Estado Observa de Perto
O que está em jogo vai além das histórias individuais de dificuldades. Os trabalhadores estrangeiros representam agora cerca de um quinto de todos os contribuintes da Segurança Social e geraram um excedente líquido de €16.3 mil milhões para o Estado português na última década. O sistema não passou a ser negativo — o ISS registou 539,493 novas inscrições de trabalhadores estrangeiros durante 2025, praticamente inalterado face ao ano anterior, e o saldo migratório global da Segurança Social permanece positivo, ainda que numa tendência de enfraquecimento desde 2024 —, mas as autoridades estão claramente nervosas quanto ao rumo dos acontecimentos. As contribuições continuam a subir em 2026, mas as autoridades afirmam que o ritmo de crescimento está a abrandar mês após mês.
Os setores mais expostos — agricultura, hotelaria, construção — já reportam dificuldades de recrutamento em regiões como Odemira e o Algarve, segundo as organizações comunitárias que acompanham esta mudança.
O Que Observar a Seguir
Para os estrangeiros que ponderam atualmente ficar, renovar ou seguir em frente, vale a pena acompanhar três coisas: se o portal de renovações em linha da AIMA acelera de facto o processamento ao longo de 2026; se o Governo cumpre a publicação mensal dos dados dos contribuintes estrangeiros, o que tornaria tendências como esta mais fáceis de acompanhar em tempo real; e se o crescimento salarial nos setores dependentes de mão de obra migrante começa a fechar a diferença face aos destinos concorrentes. Nada disto altera o essencial na prática — quem trabalha em Portugal continua a precisar de um NISS, de inscrição correta e de documentação atualizada tanto junto das Finanças como da AIMA, independentemente de como se desenrole o debate político. Se a renovação da sua própria autorização ou a sua inscrição na Segurança Social ficou parada, documente-a e procure aconselhamento antes que uma cessação formal apareça associada ao seu nome — a nossa equipa do guia de impostos e NIF e dos serviços pode indicar-lhe o passo seguinte certo.